o meu filho precisa mesmo de fazer terapia da fala?

Já varias vezes chegaram a mim com esta pergunta. E cada vez mais a resposta mais adequada me parece ser: depende dos seus objetivos e expectativas!
A necessidade de Terapia da Fala parece-me cada vez mais relativa… não a posso comparar a um antibiótico, mas tenho a certeza (eu e a comunidade científica) que tem impacto positivo no desenvolvimento da criança, em caso de necessidade. Sim, é um tratamento dispendioso, mas quem nunca ouviu a frase ” se acha que a inteligência é cara, experimente a ignorância…”.
Uma dificuldade de linguagem numa criança não tem apenas impacto na aprendizagem, tem também um grande impacto social. Se os colegas não a compreendem, a relação vai ser afetada por isso e a criança pode ser negligenciada. Além disso, iniciar a escolaridade com dificuldades de linguagem influencia negativamente as aquisições.
Ouço muitas vezes “o pai também teve dificuldades” ou “a mãe também teve dificuldades”, o que parece querer dizer, que o problema passa. Nem sempre isso acontece, e a criança acaba pode ter o seu potencial limitado. Pensemos por exemplo no caso de crianças com dislexia. As crianças com dislexia, não têm nenhuma alteração cognitiva, têm, como o nome diz, dificuldades na leitura e escrita. Ou seja, devidamente gerida, podem desenvolver todo o seu potencial e fazer as aquisições. Não nos podemos esquecer que a dificuldade na linguagem não é só na Língua Portuguesa, afeta todas as disciplinas, pois o ensino é mediado pela linguagem e língua.
E é relativa porquê?
Apesar de todas as evidências científicas, a necessidade continua a ser relativa, porque é sempre mediada pelas necessidades que a família demonstra! Se para a família não for um problema a criança não falar aos 4 anos, dificilmente vão perceber a necessidade de Terapia da Fala. Cabe aos profissionais de saúde que lidam com a criança mostrar e explicar como se processa o desenvolvimento normal e quais as etapas esperadas em cada idade e gerir as suas expectativas. Os profissionais de saúde aqui não são só os Terapeutas da Fala, são os Médicos de Família, os Pediatras, os Enfermeiros da Família, os Educadores e todos os outros profissionais que lidam diretamente com a criança.
É também relativa, pois as expectativas variam de família para família. Para algumas famílias, uma pequena distorção num fonema é motivo para intervenção, enquanto para outras, um atraso de linguagem já não é.
Desta forma, considero que nós profissionais temos de informar devidamente as famílias e a partir daí aceitar as suas decisões e gerir as nossas próprias expectativas.
Por fim, acha que o seu filho precisa de Terapia da Fala? Já lhe falaram nisso na escola, ou no Pediatra? Peça uma avaliação, procure informar-se devidamente junto dos profissionais adequados, procure várias opiniões e depois tome uma decisão!
Mitos em Terapia da Fala -nº8

Mitos em Terapia da Fala -nº8

Mito nº8: “Ele tem tempo de aprender a falar corretamente até entrar na escola!”

A intervenção precoce é importante para colmatar desde cedo problemas existentes. Além disso, iniciar a escolaridade com lacunas ao nível da articulação e linguagem torna muito mais difícil a aquisição da leitura e escrita, com prejuízos evidentes na aprendizagem.

 

 

A família tem de colaborar?

A família tem de colaborar?

 

Na terapia da fala a família tem um papel essencial e é muitas vezes tida como “culpada” quando as coisas não correm bem. Enquanto terapeutas temos de perceber e refletir sobre como é que a componente família influencia a terapia e como é que nós condicionamos a participação da mesma.

Tantas vezes dizemos: “a família TEM DE colaborar!”. Mas, na maior parte das vezes de nada adianta fazermos imposições sem explicar todo o processo. E como e quando podemos fazer isso?

QUEIXA E EXPECTATIVAS

Na entrevista inicial (anamnese) questiono sempre sobre a queixa e constato que, as crianças muitas vezes não sabem porque vieram à Terapia da Fala. Não sabendo a razão de estarem ali e não sentindo a necessidade de terapia é importante passar por uma fase de consciencialização do problema e investir sempre em atividades lúdicas. Algumas vezes também, os pais vêm à terapia por indicação de terceiros (médico, educador…). Nestes casos é essencial falar sobre o desenvolvimento normal e sobre as alterações que justificam a sua vinda à terapia da fala. É importante também explicar quais as competências que a criança precisa de adquirir e quais as consequências e dificuldades que poderá vir a ter se essas competências não forem desenvolvidas. Se a  família perceber os benefícios da terapia mais facilmente irá colaborar.

As expectativas em relação à terapia é bastante importante, pois só sabendo o que as pessoas esperam posso definir um plano individualizado com objetivos claros e prioridades adequadas. É também importante conhecer as expectativas para poder perceber se o que pretendem é exequível e se não, esclarecer à partida os limites da minha intervenção.

 

OBJETIVOS

A definição de objetivos tem de ser feita em conjunto com a família. Se eles referem que a maior preocupação é a articulação, temos de trabalhar a articulação, mesmo que estejamos ao mesmo tempo a trabalhar outras áreas da linguagem. Mas se não seguirmos as prioridades da família, o que é importante para eles e o motivo que os trouxe ao nosso gabinete, dificilmente irão reconhecer o trabalho e colaborar. Se eu for a uma loja para comprar uma caneta azul, dificilmente vou aceitar uma vermelha. Neste aspeto, o que posso fazer é dar a minha opinião, do que acho mais importante e do porquê. E as pessoas aceitam, ou não.

Este processo não é fácil de gerir, e por vezes é complicado explicar determinados conceitos a algumas famílias, mas mesmo assim, temos de reavaliar constantemente os nossos resultados e fazer sempre o nosso melhor com os recursos disponíveis.

O processo terapêutico implica sempre o envolvimento de diferentes pessoas, com valores, crenças e necessidades diferentes. Este aspeto é que torna o processo terapêutico difícil, mas também é isso que o torna interessante e desafiante!

 

O seu filho está a fazer Terapia da Fala? – 6 dicas para si!

O seu filho está a fazer Terapia da Fala? – 6 dicas para si!

Na intervenção terapêutica é comum solicitar aos pais que dêem algum apoio ao trabalho que é feito em sessão. Ou seja, é pedido que eles treinem com as crianças as competências que estão a ser trabalhadas e adquiridas. Com certeza que ninguém faz nem se lembra de fazer isso o  dia todo. Também não é isso que queremos!

 

“Terapeuta, esta semana não houve tempo para treinar… Terapeuta, ele já não quer fazer os trabalhos em casa…  “ são algumas das frases que vamos ouvindo. Tornar a Terapia um sacrifício para as crianças não é de todo o pretendido!

Assim, deixo algumas dicas para os pais fazerem este trabalho, para evitar que as crianças saturem e para tornar o processo terapêutico mais rápido e eficaz.

  • Criar o hábito de treinar todos os dias 10 minutos –é importante ter a preocupação de treinar todos os dias um bocadinho. É mais vantajoso treinar todos os dias 10 minutos do que treinar só um dia por semana 60 minutos.
  • Escolher um momento concreto do dia para o treino –pode ser a viagem para a escola, o momento do lanche, os minutos à espera do autocarro, o tempo do banho, . A família saberá qual o melhor momento do seu dia!
  • Envolver os membros da família – não tem de ser sempre a mãe ou o pai a fazer os exercícios com a criança. Há sempre uma avó ou avó, um primo, uma amiga, um irmão, alguém que tem tempo e gosto em colaborar!
  • Selecionar palavras ou frases que a criança diz com frequência para o treino – a seleção do vocabulário tem influência nos resultados e na funcionalidade. Com certeza que a criança estará mais motivada para dizer bem o nome de amigos, do avô, do animal de estimação, dos desenhos animados favoritos, entre tantas outras possibilidades.
  • Brincar com as palavras – É essencial que a criança se divirta! Assim, explorar as palavras treinadas, fazer frases engraçadas, às vezes até absurdas, arranca muitas gargalhadas e aumenta a motivação! Além disso, permite o desenvolvimento semântico.
  • Reforçar quando a criança diz bem –é importante dar o modelo correto à criança quando ela se engana, mas é muito mais eficaz reforçar, parabenizar e elogiar a criança quando ela já está a conseguir fazer bem os exercícios ou quando o fonema que está a ser trabalhado aparece no discurso espontâneo.

 

 

E vocês, que sugestões têm?

 

Sara Castilho

 

 

Porquê algodão quando se pode ter seda?

Num trabalho numa papelaria, que acumulo com o outro de Terapeuta da Fala, um cliente pediu-me um lápis branco, que dei! Ao receber o lápis, o Senhor disse-me que com as borrachas normais já não consegue apagar com precisão, pelo que prefere esse lápis para apagar. Perante isso, disse-lhe que, para isso, tínhamos os porta-borrachas, que se mostrou a solução mais adequada. Mas qual a relação disto com a Terapia da Fala? Bem, o Terapeuta da Fala muitas vezes apresenta opções que melhoram a qualidade de vida das pessoas, mas que estas desconheciam.

O Terapeuta da Fala é o profissional responsável pela prevenção, avaliação, intervenção, gestão e investigação científica das perturbações da comunicação humana e deglutição, mas o que é que isso quer dizer? Sendo estas as áreas de intervenção do Terapeuta da Fala, o que pretendemos com a nossa intervenção é promover uma melhoria na qualidade de vida das pessoas com quem intervimos. (Em casos de disfagia, muitas vezes a nossa atuação tem uma influência maior do que apenas na qualidade de vida, podendo estar em causa a vida da pessoa).

A intervenção precoce em crianças é importante para o desenvolvimento das mesmas e consequentemente para a sua qualidade de vida. À entrada da escola, quando as crianças têm dificuldades articulatórias, muitas vezes, com dificuldades na linguagem associadas, o processo de aquisição de leitura e escrita torna-se muito mais difícil, podendo surgir sentimentos de frustração e recusa da criança perante a escola, entre inúmeras outras consequências. Imaginam-se a correr uma maratona com uma lesão na perna? Não me parece boa ideia! Nestes casos a intervenção da Terapia da Fala precoce pode ajudar o processo de aquisição de leitura e escrita, nomeadamente, com o desenvolvimento das competências linguísticas e articulatórias que influenciam este processo de aquisição, como por exemplo, as competências fonológicas.

Por isso, se tem dúvidas se o seu filho precisa de Terapia da Fala, se ele vai entrar na escola no próximo ano letivo e ainda tem alterações articulatórias e uma “fala atrapalhada”, procure um Terapeuta da Fala para uma avaliação.

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Mitos em Terapia da Fala -nº7

Mitos em Terapia da Fala -nº7

Mito nº 7 -“Quando uma pessoa faz uma aspiração desenvolve sempre pneumonia.”

Nos casos de disfagia, nem sempre se desenvolve pneumonia mesmo havendo aspiração e pode ocorrer pneumonia na ausência de aspiração, derivado a outros fatores (doença respiratória, imobilidade…). Contudo, a aspiração é um fator de risco para o desenvolvimento de uma pneumonia e deve ser devidamente avaliado. Além disso, mesmo sem o desenvolvimento de pneumonia, as aspirações prejudicam a saúde pulmonar. É essencial uma avaliação adequada destes casos.

Casa do X! -atividade

Casa do X! -atividade

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Esta atividade é bem analógica, mas as crianças divertem-se imenso!

Como faço? Atrás de cada janela (e do vaso também) estão coladas imagens com o som “x”. Dependendo do que pretendo, posso pedir-lhes para soprarem para “abrirem” as janelas e verem o que está atrás! E depois treinar a articulação, em palavra isolada, pedir frases, etc. Posso também fazer como jogo de memória, mostrar-lhes todas as imagens e depois perguntar-lhes o que está atrás de cada janela.

Serve também para trabalhar compreensão  de material verbal (“quais os objetos escondidos atrás da janela oval e atrás do vaso?”).  Basta ser criativo!

Terapia da Fala -passos do processo terapêutico

Terapia da Fala -passos do processo terapêutico

Terapia da Fala

O processo terapêutico em Terapia da Fala tem subjacentes alguns passos essenciais para o sucesso da intervenção:

Anamnese – neste momento ocorre o primeiro contacto com o utente. É um momento muito importante para o estabelecimento da relação terapêutica. Na anamnese há a recolha dos dados pessoais e clínicos da pessoa, bem como da queixa e das expectativas.

Avaliação -a avaliação corresponde ao processo de averiguação das competências da pessoa, permitindo definir a linha de base das pessoas, isto é, as competências que a pessoa tem. Esta avaliação é orientada de acordo com os dados recolhidos na anmnese e pode ser formal (através de testes validados) ou informal (através de provas não validades). Normalmente a anamnese e a avaliação ocorrem numa mesma sessão, na primeira. Curiosamente, já me aconteceu, em gabinete privado, não ter noção nenhuma de que pessoa iria encontrar na primeira pessoa (idade, queixa), tendo de me preparar para tudo! Assim, sempre que possível, mesmo antes da primeira sessão,  procuro saber alguns dados básicos como a queixa e a idade que já me permitem direcionar logo aquilo que preciso de avaliar. A partir dos dados da avaliação conseguimos definir um diagnóstico e prognóstico.

Plano de intervenção – o plano de intervenção é elaborado fora da sessão, de acordo com as competências que a pessoa apresenta, pois temos de saber  o ponto de partida, para definir o que se pretende atingir, ou seja, as competências que podemos desenvolver. É como numa viagem, eu tenho de saber quanto gasóleo tenho e quanto gasta o meu carro para saber quantos quilómetros consigo fazer! A partir daí, definimos os objetivos, com as características que mencionei no post Não planear é o mesmo que falhar, e ressalvando sempre a importância das expectativas das pessoas e do contexto (inclui espaços, recursos humanos, tempo disponível…), mesmo que não estejam presentes neste momento. Neste plano definimos também as estratégias a que vamos recorrer para atingir esses mesmos objetivos.

Intervenção – A intervenção é a aplicação prática do plano de intervenção. Depois de definidos os objetivos, para a intervenção, é preciso definir e elaborar as atividades que nos permitam atingir esses mesmos objetivos. Em crianças, é muito importante que as atividades sejam lúdicas, para que elas se mantenham motivadas. Apesar de ser necessário definir previamente os objetivos, ao longo da intervenção vamos percebendo melhor quais as estratégias que resultam melhor. Esta é a fase em que há maior contacto com a pessoa, pelo que, é também nesta fase que fazemos os reajustes ao plano.

Reavaliação/Alta – A reavaliação surge sempre que necessária, ou quando é concluído o tempo de intervenção definido. Pode ser necessário definir novos objetivos para a pessoa e fazer um novo plano (ou um reajuste do anterior). Se os objetivos definidos forem atingidos, então será dada a alta.