Entre os 24 e os 1024 meses

Entre os 24 e os 1024 meses

A Terapia da Fala abrange uma larga população no que diz respeito a faixas etárias! Cada vez mais é reconhecida esta amplitude temporal na atuação do Terapeuta da Fala, uma vez que a intervenção precoce é essencial para a otimização do desenvolvimento da criança assim que é detetada alguma dificuldade. A verdade é que pode ser pertinente a atuação do Terapeuta da Fala desde o nascimento, havendo já colegas a atuar na neonatologia. Em contraste, com o envelhecimento da população, surgem também algumas dificuldades, ao nível da comunicação, linguagem e deglutição em que o Terapeuta da Fala pode ter um papel muito importante para a qualidade de vida  da pessoa.
Trabalho atualmente num contexto com pessoas numa faixa etária tão variada que me arrisco a dizer que entre a mais nova e a mais velha distam cerca de 1000 meses. Adequar-me  a características tão dispares e a necessidades diferentes é um desafio diário que exige muito empenho, estudo e responsabilidade. Mas é também reconfortante quando aos 1024 meses oiço uma utente a dizer “ainda não tive nenhum cão!” mostrando de uma forma tão simples que, por mais dificuldades que surjam, os sonhos permanecem.
“Fez-se luz” -dificuldades de resolução temporal e sons “l” e “r”

“Fez-se luz” -dificuldades de resolução temporal e sons “l” e “r”

O Praat tem sido a minha companhia diária nos últimos tempos e tem-me ensinado muitas coisas e hoje trago-vos um momento “fez-se luz!”

Quando tirei a formação de processamento auditivo foi referido que crianças com dificuldades de resolução temporal, a habilidade responsável pela deteção de intervalos de tempo entre diferentes estímulos sonoros (Santos, Parreira, & Leite, 2010),  podem ter dificuldade em produzir os sons “l” e “r”(4) porque são sons mais curtos, mas não tinha a perceção do quão curtos eram.

Fico fascinada quando vejo que conseguimos detetar estas diferenças ao nível minucioso. No exemplo acima, no espectrograma da palavra “hora”, o “O” e o “a”(6) têm uma duração de aproximadamente 200 milissegundos, enquanto o “r”(4) tem uma duração de 43 milissegundos. Estão a ver o nível de precisão? E o quão difícil é para uma criança com dificuldades de resolução temporal perceber esta mudança? E o quão curto é o fonema “r” (4)?

A produção e perceção de fala são para mim cada vez mais interessantes.

 

 

Referência bibliográfica:

Santos, J. L. F. dos, Parreira, L. M. M. V., & Leite, R. de C. D. (2010). Habilidades de ordenação e resolução temporal em crianças com desvio fonológico. Revista CEFAC, 12(3), 371–376. https://doi.org/10.1590/s1516-18462010005000026

Precisas da tua voz para uma maratona ou para um sprint?

Precisas da tua voz para uma maratona ou para um sprint?

Uma pessoa que usa a voz para falar o dia todo tem necessidades diferentes de uma pessoa que, mesmo necessitando de boa qualidade vocal, não tem um uso tão continuado. Por exemplo, um formador que dá formação durante o dia todo tem uma exigência vocal grande quanto à resistência enquanto uma pessoa em atendimento ao público (dependendo do contexto) já poderá ter uma exigência menor.  

Para facilitar a compreensão eu costumo dizer que um atleta que corre 100 m tem exigências e treino diferente de um atleta que faz uma maratona de 42 Km. Ambos precisam de treinar a sua condição física, mas com objetivos muito diferentes. Na voz acontece o mesmo pelo que é extremamente importante conhecer as exigências vocais da pessoa. Só desta forma, em conjunto com toda a sua história clínica e avaliação é que os exercícios vocais são selecionados para estarem devidamente adaptados aos diferentes objetivos.  Da mesma forma, para conseguirem atingir os seus objetivos, os atletas fazem treinos regulares e continuados, pelo que a otimização da voz e qualidade vocal também implica que a pessoa adquira novos hábitos e que cumpra o seu “treino”!

Aristóteles disse “nós somos o que fazemos repetidamente. A excelência não é um ato, é um hábito” e com bons hábitos e treino adequado a tua voz pode chegar à excelência!

 

 

Somos todos profissionais da voz?

Somos todos profissionais da voz?

No imediato, quando pensamos em profissionais da voz lembramo-nos facilmente de cantores e atores, mas também professores e jornalistas. Concordam? Estes profissionais, ainda que com exigências vocais diferentes, dependem da sua voz no exercício da sua profissão e são por isso “profissionais da voz”. 

Mas há muitos mais “profissionais da voz”, pessoas com profissões que dependem da voz no exercício das suas funções como operadores de call center, vendedores, profissionais de saúde, entre outros.  

A voz é utilizada no dia-a-dia por quase todos nós, pelo que a perda de voz, ainda que transitória, acarreta alguns incómodos na nossa comunicação e atividades diárias.   

Uma perturbação da qualidade vocal destes profissionais pode ter consequências diretas na sua profissão, comprometendo o exercício da mesma, pelo que é importante que tenham consciência das exigências para a sua voz e a saibam usar da forma mais eficiente e sem prejuízos para a qualidade vocal. 

Se acham que vossa voz não corresponde às vossas necessidades, tendo dificuldade em cantar, cansando-se facilmente a falar, ficando rouco com facilidade e de forma persistente pode estar na altura de procurar um profissional (ou profissionais)  que vos possa orientar para melhorar a vossa voz!  

 

A importância de melhorar a comunicação

A importância de melhorar a comunicação

 

A voz trémula, o olhar esquivo, os ombros curvados, as mãos irrequietas e o coração acelerado são alguns dos sintomas de quando fazemos apresentações em público. 

O conteúdo cuidadosamente preparado, sem muito texto no PowerPoint, com uma organização clara e sem repetição de palavras não são suficientes para relaxarmos e nos divertirmos e o nosso corpo denuncia-nos. A postura baixa e a voz fugidia descredibilizam a nossa mensagem. As mãos irrequietas, sempre a ajeitar o cabelo distraem quem assiste e o conteúdo essencial não é transmitido como queríamos. O nosso corpo não esconde o desconforto.  

 

Mas não precisa de ser assim.  

 

Melhorar as competências de comunicação é um objetivo que tenho procurado desenvolver nos últimos tempos. Tenho para isso procurado informações, formações e práticas que me permitam melhorar. 

Esta procura tem-me feito perceber melhor o impacto da comunicação e da forma como chegamos às pessoas através da nossa mensagem. Isso é muito poderoso e por isso tem de ser feito com o devido cuidado para que a mensagem que as pessoas recebem esteja de acordo com o que pretendemos transmitir. Comunicar é algo que fazemos todos os dias, mas será que o conseguimos fazer da forma mais eficaz? 

Falar com naturalidade, expressividade e entoação adequadas, demonstrando segurança e equilíbrio é importante nas diversas situações do dia-a-dia, tanto no contexto pessoal como no contexto profissional. Em geral, este é um objetivo de toda a gente, pois falar em público, fazer uma apresentação, ir a uma entrevista de emprego são todas situações em que somos avaliados pelas nossas competências de comunicação.  

Como Terapeuta da Fala trabalho com a comunicação, mas este trabalho pode ir além das perturbações de comunicação. Os Terapeutas da Fala têm competências teóricas e técnicas que permitem atuar no aperfeiçoamento de competências vocais e articulatórias, por exemplo, para que as pessoas possam estabelecer uma comunicação mais clara, com velocidade adequada e precisão articulatória, de acordo com as necessidades específicas e com as características da própria pessoa.  

Este é um tema que me tem suscitado muito interesse por perceber que a forma como me coloco em termos de comunicação impacta a perceção do outro sobre mim, a minha postura denuncia a minha confiança, a minha qualidade vocal o meu entusiasmo, a minha linguagem corporal reforça a mensagem.  

Vocês querem mais dicas de como melhorar estas competências? 

 

Mudança de hábitos para uma voz melhor

Mudança de hábitos para uma voz melhor

A qualidade da nossa voz é influenciada positiva e negativamente por diferentes hábitos. A consciencialização dos comportamentos benéficos e prejudiciais à laringe é essencial para uma melhoria na qualidade vocal. Ou seja, a pessoa tem de saber quais são os comportamentos que protegem a sua voz e quais são os comportamentos que a danificam, precisando para isso de rastrear os usos e abusos vocais. De seguida são apresentados alguns destes comportamentos:  

Hábitos prejudiciais 

  • Falar em esforço (falar alto, gritar, falar enquanto se pratica exercício físico)  
  • Pigarrear 
  • Falar em excesso 
  • Falar num tom desadequado 
  • Fumar 
  • Beber álcool 
  • Falar em demasia em quadros gripais  
  • Beber líquidos muito frios ou muito quentes 
  • Cantar sem preparação adequada 
  • Não beber água 

Além da consciencialização destes hábitos vocais, que se configuram como abusos, é essencial que os mesmos sejam mudados.  Tomemos como exemplo a altura em que fazemos dieta para emagrecer. Quando fazemos dieta, e retiramos aqueles alimentos que consideramos prejudiciais, até podemos emagrecer temporariamente, mas se depois os retomarmos, é muito provável que os quilos perdidos tornem a aparecer. Comparativamente, se após a terapia mantivermos os abusos vocais é mais provável que ocorra uma recidiva. Numa dieta, tem de haver uma mudança na forma como nos alimentamos, pelo que também na voz devemos adotar comportamentos que perdurem e que protejam a voz.  

Para isso, temos de estudar os nossos hábitos vocais, de perceber em que altura recorremos a eles e que alternativas podem resultar connosco. Por exemplo, em sala de aula, quando surgir a necessidade de chamar a atenção dos alunos, em vez de gritarmos, experimentamos bater palmas.  Se temos consciência que bebemos pouca água, essencial para as cordas vocais, procuremos ter sempre uma garrafa de água acessível durante o dia.  

Não basta identificar os comportamentos prejudiciais à voz. Para uma melhoria efetiva na qualidade vocal tem de haver uma mudança comportamental. O Terapeuta da Fala pode ajudar a desenvolver estratégias que promovam essa mudança!

“Mise en place” da Terapia da Fala

“Mise en place” da Terapia da Fala

Recentemente, e por mero acaso, tive acesso a um conceito usado por cozinheiro, o “mise en place”, que significa “pôr em ordem”. De acordo com o que encontrei sobre este conceito, antes de qualquer ação dentro de uma cozinha, o cozinheiro deve não só ter em mente o que vai fazer, como o que irá fazer, o estado dos equipamentos, os utensílios necessários e os ingredientes preparados. Este é um momento importante na definição de um bom cozinheiro.  

Da mesma forma, acredito que a atuação do Terapeuta da Fala vai muito além do trabalho realizado em sessão e seja sempre necessário o seu próprio “mise en place”. Antes de cada sessão, o Terapeuta da Fala precisa de definir o que vai trabalhar na sessão, os objetivos e as atividades associadas aos mesmos, de preparar essa mesma sessão, em termos de materiais, e de adequar a sala sempre que for necessário. Este é um trabalho que pode passar despercebido mas que é essencial para o sucesso da intervenção terapêutica, pelo que deve ser devidamente considerado em horário de trabalho. Quando tal não é possível a intervenção torna-se mais difícil, mais morosa com prejuízos para o próprio utente.  

Ano novo vida nova!

Ano novo vida nova!

Um ano novo dá-nos sempre a sensação de recomeço, de novas oportunidades. Estes desejos de mudança estendem-se naturalmente ao meu blog. Após algum tempo, está na hora de lhe dar mais uma oportunidade e continuar a melhorá-lo. Esta paragem foi sobretudo uma mudança profissional que me tem desafiado muito e enriquecido. Espero partilhar mais coisas com vocês em breve!

Bom ano, bons recomeços!

Cada criança aprende no seu ritmo?

Cada criança aprende no seu ritmo?

Assistir ao desenvolvimento de uma criança, verificar as pequenas aquisições, por vezes de um dia para o outro, é um fenómeno muito interessante. Nesta aquisição de competências, cada criança tem o seu ritmo. Ou seja, há crianças que atingem determinadas etapas linguísticas mais cedo e outras mais tarde, sem que daí advenham consequências. Contudo, apesar de termos de ter em atenção a diversidade, a aquisição de sons da fala, por exemplo, desenvolve-se em momentos relativamente previsíveis (McLaughlin, 2006). Ou seja, uma criança que diz a primeira palavra aos 10 ou aos 14 meses está dentro do intervalo esperado. Se a criança só diz a primeira palavra aos 2 anos é importante avaliar para excluir uma alteração. Se eu quiser ir do Porto para Lisboa de carro posso fazer inúmeras estradas, demorar mais ou menos tempo, entre nacionais e auto-estrada. Mas se eu demorar 24 horas entre o Porto e Lisboa alguma coisa poderia ser feita de forma diferente.
Além disso, ainda no que diz respeito à linguagem, há um intervalo de tempo em que as aquisições são mais fáceis, uma “janela de oportunidade”. Fora desse período as aquisições linguísticas são mais difíceis.
Deste modo, é muito importante respeitar o tempo de cada criança, mas ter a noção que, quando as aquisições não ocorrem no momento correto, tanto na linguagem, como no desenvolvimento da autonomia, emocional e social, (pois o desenvolvimento ocorre como um todo), as dificuldades podem surgir posteriormente e ser mais difícil de as corrigir.
Na linguagem, em concreto, crianças que começam a falar tardiamente têm maior probabilidade de ter dificuldades na aquisição da leitura e escrita e consequentemente dificuldades de aprendizagem. Iniciar a escolaridade com alterações articulatórias e de linguagem é, deste modo, como tentar ir fazer uma maratona com uma perna partida, mais difícil! Por isso, se tem algum dúvida consulte um Terapeuta da Fala!
Referência bibliográfica:
McLaughlin, S. (2006). Introduction to Language Development. Cengage Learning.